Sherlock e as quatro razões do êxito de LOST, uma possível adequação.

Tomando como base as definições encontradas no artigo de Jason Mittell, Lost in a Great Story, no qual o autor analisa a série americana Lost apontando quatro motivos aos quais se deveriam o êxito alcançado pela mesma; a seguinte análise da também televisiva série Sherlock, apresentada pelo canal britânico BBC, se propõe a – através da aplicação dos mesmos critérios – encontrar uma adequação, ou não, de certo padrão de qualidade à adaptação audiovisual do personagem de Conan Doyle.

Tomemos como base o primeiro dos três capítulos de sua primeira temporada. Na ordem de apresentação dos personagens, Sherlock é o último a aparecer. Ele interfere de forma misteriosa na coletiva de imprensa a cerca dos supostos suicídios ocorridos na cidade, e em sua primeira apresentação já aparece precedido por uma afirmação de que dificilmente alguém o desejaria como companheiro de flat, seguida de sua primeira ação presencial, ato um tanto quanto incomum e bizarro: a agressão à um cadáver. Todas estas informações criam um ar misterioso ao redor do detetive, fato este em comum com os assasinos e vilões ao longo da série, figuras estas, em especial um deles, bastante misteriosas. Esta igualdade entre detetive e criminoso voltará a ser trabalhada por outras vezes ao longo do arco que estrutura a temporada, de forma a levantar uma interessante reflexão sobre as razões de indivíduos tão singulares e similares terem tomado caminhos distintos. Qual seria o fator diferencial entre aquele que faz o bem daquele que faz o mal?

O propósito unificado – um dos termos utilizados por Mittell em seu artigo, para se referir à unidade estrutural e significativa da série – é garantido ao espectador pela já apresentada intrigante semelhança criada ao redor dos dois grandes antagonistas da série, a qual constrói uma tensão mantida e implicitamente colocada como algo  fadado a um ápice e uma eventual resolução dentro dos códigos narrativos audiovisuais; outra garantia é o já conhecido personagem Sherlock Holmes – o qual é contemporizado pela série, sem perder, entre outras coisas, sua característica espécie de misantropia – de forma que um espectador conhecedor das estória de Conan Doyle já imagine uma estrutura com começo meio e fim; e finalmente, outra garantia de uma unidade da série é o característico meme das “histórias de detetive”, o qual já garante também uma certa estrutura a ser seguida: a apresentação de um mistério, a dificuldade em busca de pistas e uma eventual resolução.

Quanto ao Fanatismo Forense, levantado por Mittell, este é algo praticamente intrínseco à qualquer estória que envolva  o personagem do detetive de Conan Doyle. A transposição do mesmo para a TV não tornaria isto diferente. Ficamos todos na corrida para decifrar, se não antes, ao menos juntamente de Sherlock os verdadeiros motivos e meios escondidos atrás das mais diversas pistas espalhadas ao longo da série.

No que se refere à estética operacional, o fato da série tomar um certo ponto de vista Watsoniano, ou seja, tudo se dar como que através dos olhos de uma testemunha diante da genialidade do detetive inglês, nos obriga a tentarmos nos adiantar aos passos de nossa visão limitada, recebendo com desconfianças aquilo acreditado pelo amigo de Sherlock e passando a dar mais importância aos elementos encarados com indiferença pelo ex-soldado ou por outros personagens periféricos, como por exemplo o detetive inspetor Lestrade.

Já o último ponto levantado por Jason Mittel, a surpresa – geralmente encontrada em pontos chave do desenlace de certos mistérios ou mal-entendidos – é ao mesmo tempo um momento catártico – realização diante da astúcia do detetive e da eventual proximidade da punição ao vilão em questão – e um momento carregado de certa frustração para aqueles que tentaram, em vão, descobrir os enigmas antes de Sherlock Holmes.

 

 
Apresentadas as devidas, e resumidamente breves, adequações dentro dos quatro critérios apontado pelo estudioso americano, podemos presumir que a série de televisão britânica Sherlock, possuiria grandes chances de ser igualmente considerada por Mittel “a great television program”.

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3 Comentários on “Sherlock e as quatro razões do êxito de LOST, uma possível adequação.”

  1. abacateleve disse:

    muito bom, marra! 🙂

  2. @renatagames disse:

    Tudo bem que eu não vi a série, mas, sobre sua análise de cada ponto proposto pelo Mittel, como diriam os italianos, se non, è vero è trovato, rs… Você uma leitura ainda mais aprofundada em relação à série Sherlock, sobretudo quando se refere à unidade que também é construída pelos leitores de Doyle e à personagem do Watson como o que eu chamaria de um certo mecanismo narrativo que endossa o que o Mittel chama de “estética operacional”. Fique com bastante vontade de assistir à série agora! 🙂


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